18
Jan 13
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Dez anos

Imagem retirada da Internet

 

 

Todos temos os momentos que marcam uma vida, fazendo-nos experimentar um dos vários tipos de sensações, de todo o panteão de sentimentos que um humano pode sentir. Depois, há outros momentos que têm a capacidade de nos fazer toda a mescla desses mesmos sentimentos, condensando-os em tão pouco tempo, que nos esmagam. Há 10 anos, foi assim. Entre sangue e lágrimas, alegria.

 

Sabes, Sara, nunca tanto receio e alegria viveram de forma tão próxima, dentro de mim, como nesse dia. Nunca a matemática das datas, das semanas, me assustou tanto. Nunca uns gritos histéricos dum médico e um dedo indicador espetado na tua cabeça, me alegraram tanto. Nunca um bebé nos braços me atingiu assim. Nunca, talvez não, dois anos e meio antes, também assim foi. Mas não foi assim, foi diferente.

 

E hoje passas mais uma barreira, ganhas um novo dígito. Passas um barreira, não, pulas. Porque fazes isto como fazes tudo, com esse sorriso que te rasga eternamente a face e com a facilidade com que transformas tudo em que te empenhas. Mas também com a inquietude que sempre revelas, aquela impossibilidade do marasmo que vive em ti. Crescer é urgente em ti, tudo é urgente em ti, tudo é rápido e imediato. Até as respostas são prontas e afiadas e, normalmente, certeiras.

 

Porque és assim, o meu doce atómico e acelerado, que me povoas a vida com inteligência e velocidade.

 

Parabéns, Sara.

 

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11
Jun 12
publicado por pnf, às 13:46link do post | comentar | ver comentários (2)

 

 

Amanhã farás 12 anos, no dia 12, do ano 12. Não te volta a acontecer na vida, certinho. Parece um bom motivo para escrever-te? Ou então é só pretexto, porque nunca um motivo me levou à escrita, pelo menos vindo de fora. Muito menos coincidências numéricas.

 

Estás a crescer, menina. Já quase nem és menina menina, és uma menina moça, um projeto, um trajeto, uma futura mulher. Lá vais tu, dia a dia, a formar-te e também a deformar-te. Tentamos amparar-te aqui e ali, modelamos e moldamos. Mas somos só o molde e nem sempre o respeitas. Não enches a forma até cima, entornas por fora, escolhes outros moldes. Crescer deve ser sempre assim: respeitar e transgredir o que esperam de nós.

 

E agora contradizes-te e contradizes-me. Afinal és e continunas a ser menina menina. Aí estás tu à minha frente, no chão, num café imaginado, Kens como clientes e Barbies ao balcão. Tudo como dantes, agora com onze quase doze, como dantes com três.

 

Afinal crescer é uma manutenção e é, também, uma contradição em movimento. Já aprendi alguma coisa hoje.

 

Parabéns Beatriz.

 

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26
Set 11
publicado por pnf, às 22:12link do post | comentar

Múmia 

 

 

 

Isto das ressurreições, só lá vai aos empurrões, é coisa vinda de fora. E já não é de agora, mesmo aquela muito famosa, um acontecimento assombroso já com uns bons 2000 anos, só aconteceu porque alguém ordenou, levanta-te ó Lázaro, que o pobre homem, ali morto e posto em descanso, não ia lá agora lembrar-se de se levantar e andar. A inércia ordenava que estivesse morto e sossegado, para todo o sempre, na bela e imutável ordem natural das coisas. Imagino mesmo que terá sido com algum desagrado que recebeu a ordem, ai que as pernas doem de tanto tempo deitado, um incómodo valente. Mas ordens são ordens, quem pode manda e, ressuscitar ou não ressuscitar, não era a questão, era o que tinha que ser.

 

Com este espaço, é o mesmo. Dum blogue assim mumificado, inerte como um rocha no deserto, alegre na sua morte, não se espere que desate numa torrente de ideias novas, de textos palpitantes, assim de pé para a mão. Não pode ser, nem pensar, tão bem é estar parado, tão confortável esta morte.

 

Por isso estranhei quando me fizeram um convite assim. Ressuscitar isto? Por convite?

 

Sem dúvida que o convite era irrecusável. Como tal, eu, evidentemente, recusei.

 

Porque não se convida para o transcendente, para realizar o não natural. Ressuscitar deve ser operação para furar umas dezenas largas de leis na física e da biologia, entre outras ciências, ocultas ou não. Coisa complicada de conseguir-se. Não estão à espera, certamente, que seja um convite, mansidão por natureza, a dar força para tão bíblica tarefa. Um morto não se convida, não é natural. Não se vence um conforto desses com falinhas mansas, com se faz favor, se não se incomoda, era tão bom, por obséquio. Nada disso. Que as grilhetas que prendem a um descanso tão eterno e perfeito, são majestosas, chumbo e espuma ao mesmo tempo. Se há extremos que se tocam, estes enrolam-se um no outro: estar morto é um sossego.

 

Está bom de ver: ressurreição, só aos gritos, com ordens bem dadas, palavras duras, por intimação. Se há que vencer inércias e atritos, preguiças e confortos, não me convidem: isso não dá força nem para abrir um olho.


30
Nov 10
publicado por pnf, às 16:32link do post | comentar

 

 

Prometi a mim mesmo que escrevia isto. Ou melhor dito, sobre isto. Não porque tenha interesse, que não tem, mas porque tive um impulso que era sobre isto que devia escrever e, mesmo que o impulso tenha passado, que não há impulso que dure duas semanas, grande impulso seria esse, dava para atirar um elefante para fora do sistema solar e mais além. Dizia eu que o impulso já se foi, mau era, mas não seria por isso que deixaria de o respeitar e cumprir. Queremos nós andar aqui a renegar os nossos impulsos? Por mim, nem pensar. Que seremos nós sem os nossos lampejos de animalidade, o pulsar que nos afasta dum ser racional a cem por cento e sermos uma desinteressante amálgama de carne e ossos? Longe de mim essa imagem de racionalidade pura e ambulante, adoro a liberdade de ser um animal completo, mas não um completo animal.

 

Tudo isto originado por um filme, melhor, um DVD perdido em casa. Perdido também não é a palavra, porque ninguém o procurava, penso até que ninguém sequer se lembrava que ele existia. Um tesouro eternamente à vista, tão à vista que nunca ninguém o viu, intocado desde que, sabe-se lá como, entrou em casa. Até que eu lhe toquei e, naquela atitude de deixa lá ver o que isto é, o libertei do celofane e permiti que tomasse assento numa unidade onde lhe fosse possível mostrar ao mundo, ao meu claro, uma outra forma de cinema.

 

Desconheço se "American Splendor" será uma obra-prima. Sei que para mim o foi, ali, naquele momento. Como é bom ver uma nova interpretação duma arte, rompendo com as suas fronteiras, estraçalhando com os limites naturais do cinema e ao mesmo tempo aproximando-o, misturando-o, com o documentário e a banda desenhada, outras linguagens, mas certamente não línguas estranhas. Ver o real e a sua representação cruzando-se, como se fosse a coisa mais natural do mundo, mostrou-me, uma vez mais, que há sempre muitos caminhos a percorrer, muitos mais do que aqueles para onde a preguiça e o medo nos empurram, dia após dia. Romper é sempre agredir, mesmo que seja esse o percurso mais curto entre dois pontos.

 

Foi por me ter sido revelado que algo mais é sempre possível, que terminei o filme a dizer que tinha que escrever sobre isto. E foi também, e se calhar principalmente, pela evidência que todos temos tesouros à vista, sem escavar encontramos pérolas. Basta abrir os olhos. E ver, porque olhar não chega. Por isso quis escrever: está feito, não se fala mais nisso.


25
Out 10
publicado por pnf, às 10:00link do post | comentar | ver comentários (4)

 

 

Alinhem-se os baldes e as esfregonas, que, quando um pai (d)escreve o sucesso duma filha, a baba pode escorrer e inundar écrans, teclados e ratos, com os problemas que se podem adivinhar. E, cautela, este blogue não tem seguro, é do mais irresponsável que há, e não vou agora entrar aqui em despesas inesperadas. Assim, escusam de empunhar facturas em meu nome, a não ser que já estejam pagas: nesse caso tudo bem, sempre podem servir para eu tentar meter no meu IRS, se ainda tal coisa for possível...

 

É duro ser-se agraciado. E ser espectador da cerimónia, também: receber os símbolos da chegada ao cume, pode ser um processo demorado e, mesmo penoso. Porque estamos num país em que uma cerimónia tem que ser, por natureza, cerimoniosa. E foi vê-los a todos, em seus fatos domingueiros, arranjados e arranjadas como para um baile, mas aqui a dança é outra: dança-se a troca de favores, um microcosmos de lambebotismo, das palmadinhas nas costas, dos elogios a granel, é prá maria e pró manel, somos todos tão dedicados e bons, a oitava maravilha do mundo moderno.

 

Duas horas e meia de discursos, medalhas, sorrisos e aplausos. Muitos aplausos: para quem organizou tudo isto, para quem pagou, para quem apoiou, para quem manda e para quem obedece, para quem trabalhou, muito, pouco ou nada, para os pais e para as mães, para os senhores directores, senhores representantes, senhores presidentes disto e daquilo, mais aplausos para quem está e, também, porque não?, para quem não está mas gostava de estar. Por acaso, esqueceram-se de pedir um aplauso para o agricultor que semeou as flores que embelezavam o palco. Espero que no próximo ano esta falta seja reparada, era da mais elementar justiça.

 

Poucas vezes, nestes anos de vida, as minhas falangetas foram tão colocadas à prova. Temi, aí pela trigésima salva de palmas, que uma fractura de esforço pudesse aparecer a qualquer instante. Estou muito destreinado nestas lides de bater palmas: vou agora entrar à socapa em algumas cerimónias institucionais e, quem sabe, no próximo ano já me apresento em muito melhor condição física e, assim sim, vou bater vigorosamente todas as salvas de palmas que forem solicitadas. É que não vai escapar uma.

 

Mas o que são as dores de mãos, quando vemos que a nossa filha está ali, feliz, realizada, naquele cume? Mesmo que todos saibamos que, este cume, é apenas o ponto de partida para uma nova subida, mais longa, mais íngreme, mais custosa. Mas atingível.

 

Parabéns Beatriz.

 


15
Out 10
publicado por pnf, às 10:00link do post | comentar | ver comentários (2)

 

 

 

Vê-los crescer, ganharem novas competências, um vocabulário mais rico, é sempre bom. Pelo menos é o que dizem. Eu, pela parte que me toca, acho isso muito bem: é de facto imensamente lindo ver os nossos filhos a crescerem e falarem como gente crescida, mas prefiro que seja depois do pequeno-almoço, assim quando já eu estiver relativamente acordado.


É que os palavrões podem ser muito indigestos logo pela manhã, como sabemos. A mim, pelo menos, caem-me sempre muito mal. Talvez tenha a ver com o facto de me colocarem contra a certeza que as minhas meninas crescem rápido demais, para o meu gosto. E eu gosto pouco que me coloquem contra certezas do que não gosto, prefiro ir de encontro às certezas do que gosto. São gostos meus, manias.


Provavelmente será melhor esclarecer desde já as almas mais sensíveis, que estamos aqui a tratar de palavrões e não de asneiradas, essas coisas de fazer corar o mais libertino leitor. Não, nada disso. Assim fosse e já a bola vermelha estaria içada, ali ao canto. O assunto, dizia eu, são os palavrões, aquelas palavras em que a proporção entre o número de sílabas e a idade de quem a diz, não bate certo. Como, por exemplo, a Beatriz, do baixo dos seus nove anos, dizer impronunciável. De referir que eu disse por exemplo, mas na verdade não é um exemplo, é mesmo o facto que queria relatar. Talvez, parece-me, não devesse ter dito por exemplo, ou, pior ainda, não devia ter usado o facto a relatar, como um exemplo... Adiante.


Impronunciável. Aos nove anos. E logo ao pequeno-almoço. Subitamente, senti-me atirado para o futuro, dei de costas com 2020 ou 2025, altura em que esperaria ouvir essas palavras, vindas de quem vieram. Porque, aí sim, seria uma palavra, não um palavrão. Era o mesmo que eu escrever aqui e agora uma palavra, aí com umas 35 sílabas, não queriam isso, pois não?


É que isto não foi só o susto matinal que me deu. Não, vai mais além. Dei por mim a imaginar no tipo de palavreado que será necessário ter ao jantar, ou mesmo daqui a um ou dois anos. Será mesmo complicado arranjar palavras, perdão, palavrões, para a Beatriz. Onde vamos nós encontrar palavras portuguesas, com umas quinze ou mais sílabas? Só vejo uma solução, passarmos para o alemão, ou o galês, gente habituado a colar as palavras umas às outras, sem rei nem roque.


Há ainda outra possibilidade, agora que penso melhor no assunto, podemos tentar falar em juridiquês, aquela língua esquisita com que os nossos legisladores gostam de se entreter. Mas é melhor não, o galês entende-se bem melhor!



16
Set 10
publicado por pnf, às 22:06link do post | comentar | ver comentários (6)

 

 

A Sara sempre teve um problema de locomoção. Melhor, sempre teve um problema com o conceito de andar. Para ela, andar é correr, e correr, é correr ainda depressa. Ora, quem muito corre, muito cai. São as leis da Física, essas malandras. Lamentar ou lutar contra isso, é tão útil como uma colher de pau num combate a um incêndio.


Temos, assim, uma criança lançada em elevada velocidade, gelado numa mão, a piorar ainda mais o equilíbrio, o prenúncio do desastre. Uma perna que bate noutra, uma curva mal medida, talvez, quem sabe um degrau que não devia ali estar e cá temos o acidente, a desgraça anunciada. A menina já não corre, levanta-se. No chão ficou o gelado, restos de pele, algum sangue e o orgulho ferido. Estamos na presença de quatro feridas, uma para cada membro, que assim é tudo muito mais democrático, comem todos por igual. Não queremos cá uma perna a rir-se dum braço ou um braço a gozar com o outro.


Muito pior que a menina, ficou a avó, que, de tão aflita, já não distinguia onde acabavam a manchas do cornetto de morango e começava o sangue. Assim, Centro de Saúde com ela. E todo o ritual próprio dessas instituições, foi cumprido: um pouco de cunha para serem atendidas, o deitar na marquesa, os betadines e a água oxigenada, o chupa-chupa, as compressas e o conselho final: já está, agora se a menina tiver dores, podem dar-lhe um pouco de Ben-U-Ron. Todos os pais o sabem, até porque é fatal como o destino, seja em Braga, Freixo-de-Espada-à-Cinta ou na Ilha do Corvo, uma ida a um Centro de Saúde com uma criança, nunca está completa até que nos digam que podemos dar Ben-U-Ron, caso haja dor. Tem que ser, é assim mesmo, e, caso um dia tentem terminar uma consulta sem essas palavras, eu sei que estarei na presença dum falso profissional e saio dali directamente para a esquadra da polícia, para apresentar queixa.


Naturalmente muito combalida, a menina partiu para um sofá que lhe desse descanso, uma televisão que passasse uns belos bonecos e, porque não, um lanche ainda mais reforçado do que é habitual. O que me parece uma impossibilidade física, mas acredito que a avó o tenha tentado com grande vigor e dedicação.

O tempo tudo cura e os bons conselhos ficam para sempre. Já o sabíamos, mas a Sara agora se encarregou de nos relembrar. Depois de muito descanso e quando alguém perguntou como estava, belas palavras saíram pela sua pequena, porém sábia, boca:


- Já estou melhor, mas se tiver dores, vou tomar um Bennetton.


Sempre se disse, e eu até ia acreditando, mas agora é para mim uma certeza: não há nada que faça melhor a uma mulher, do que ir às compras. E, pelos vistos, está inscrito nos genes, reside nas profundezas do cérebro feminino. No caso da minha filha, a coisa até parece ser mais extrema, porque sabe perfeitamente qual é a marca que lhe tira as dores. Acredito que se o problema fosse outro, por exemplo febre elevada, haveria uma outra marca qualquer que tivesse o poder de reduzir a temperatura, mas ainda não tive a oportunidade de aprofundar este tema.


Meus caros médicos, aconselho a substituição das vossas tabelas de medicamentos, pela lista das lojas do centro comercial mais próximo. Porque quando aparecer algum ser do sexo feminino, grande ou pequeno, com grandes ou pequenas mazelas, não lhes indiquem a farmácia, mandem-nas às compras!


E pensar que andaram os nossos antepassados pelos campos e montes fora, à procura de ervas e raízes, fazendo chás e infusões, julgando que estava aí a solução para todas as maleitas... Pobres almas, mas então não viam que a solução não se encontrava aí, mas sim num qualquer shopping?

 


18
Abr 10
publicado por pnf, às 22:34link do post | comentar

 

 

Parecendo que não, este blogue até que tinha um objectivo. Está certo que, pelo caminho, enviesou-se por caminhos e becos algo confusos e foi perdendo a autoestrada que dava sentido à coisa. Relembremos, então: serviria para relatar o suficiente que garantisse uma ideia da infância, para que, quando as minhas filhas forem grandes, não tenham a necessidade de me perguntar histórias de quando eram pequeninas. Assim, precavendo desde já a hipótese das maleitas dos velhos me limparem a memória, ficam aqui as coisas, preto no branco, em eternos bytes gravados.

 

E há coisas que devem mesmo permanecer, pedaços importantes do tapete de memórias que se quer tecer, por mais improváveis que pareçam. É aqui que aparece o bicho, ou melhor, o bichinho: animal sem espécie, tem um diminutivo como nome, que nasceu há tantos anos quantos os anos em que as crianças aportaram na nossa vida e não cresceu. Nem nunca crescerá. O bichinho é a minha mão e a alegria das meninas. Talvez seja uma recriação do Coisa da Família Adams, o que desde logo prova que não há personagem de terror, que não possa ser bem aproveitada, para uma brincadeira infantil. Estou até muito esperançado que apareça alguém que infantilize o Freddy Krueger, que me parece muito indicado para alegrar qualquer festa de aniversário infantil. Estou certo que concordarão comigo.

 

O bichinho gosta de crianças, brinca com elas, mas rouba-lhes bolachas e puxa-lhes os cabelos. E elas zangam-se com ele e ralham-lhe, bichinho!!. E ele fica envergonhado, roça os dedos, uns contra os outros, cabisbaixo, ele não faz nada por mal, ele é assim, é pequenino. Claro que ele não fala, estes dedos não têm boca, mas nem precisa: não há movimento que elas não entendam, vontades que elas não percebam, dores que elas não acudam. Tantos anos de convívio, transformaram duas crianças e uma mão, na pandilha mais perfeita e improvável.

 

Eu sei que o bichinho não cresce e só morrerá comigo. Mas sei também que a sua vida não vai estar activa muito mais tempo... Daqui a pouco vou ouvir, contrariado talvez, que está na hora do bichinho ceder o seu lugar, na vida das meninas. Que está na hora de entregar o bichinho à sua história passada, à infância que para trás vai ficando. E ele, coitado, hibernará. No meu bolso será guardado, assim como guardadas ficarão as memórias de tantas horas de diversão, que cinco dedos e duas crianças podem ter, todos juntos.

 

Mas, quem sabe, um dia não ouvirei, talvez mesmo daqui a umas tantas décadas, papá, onde está o bichinho? E, nesse dia, uma encarquilhada mão se libertará do peso dos anos, abandonará a manta das memórias e ganhará de novo a sua vida. À procura de bolachas para roubar, cabelos para puxar ou mesmo de corrimões onde escorregar.


13
Out 09
publicado por pnf, às 09:16link do post | comentar | ver comentários (15)

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Como garantido tínhamos 4 dias de tédio e aborrecimento. Pelo menos era o que se podia concluir depois dumas breves pesquisas. É que bastou ler umas duas ou três opiniões sobre o nosso destino, para vermos que os adjectivos mais utilizados andavam na onda do sonolento, chato, desinteressante e mais uns sinónimos, igualmente simpáticos. A coisa prometia. Pelo sim pelo não, meteram-se uns livros no saco, para acelerar as horas que teimassem em passar.

 

Não li nem uma linha. Não tive tempo: ocupei-me a observar a beleza, a divertir-me, a ver, a provar. Não me aborreci. Que miséria, não consegui chegar às mesmas sensações de quem esteve lá antes... Onde terei errado?

 

Claro que quem chega a Bruxelas com a ideia de ver uma horda de cinzentões engravatados a medir maças com régua e esquadro, a garantir que todas as bananas curvam para o mesmo lado ou a normalizar qualquer outra coisa, são capazes de ficar um pouco desiludidos. Esses eurocratas-maníacos-dos-standards devem andar acantonados nos seus gabinetes, porque nas ruas encontramos um povo simpático e folgazão, a aproveitar os raios de sol ou os pingos de chuva, nas esplanadas; fanfarras coloridas e gigantones a dançar. Mais ou menos o que seria de esperar duma festa minhota, mas num formato um pouco mais nórdico e friorento.

 

Claro que há os clichés. E há que experimentá-los a todos, não é esta a altura para ficarmos nas margens, de sermos alternativos. Até porque estamos a falar de cerveja, aliás cervejas, centenas de tipos diferentes, cada uma com o seu sabor e o seu copo, nada de misturadas, nem pensar. Estamos também a falar de chocolates, cada um com melhor aspecto que o anterior, a gritarem por nós nas montras das chocolatarias, montras de babar e de pasmar e há, ainda, as batatas fritas, com molho disto ou daquilo. Ah, e as waffles ou gaufres ou lá como se chamam, quase que me esquecia delas, com aquele cheiro a entranhar-se nas ruas. Terra de colesterol elevado, fosse eu belga e explodia antes dos 40 anos, era certinho.

 

Quatro dias não dão para muito, por isso a ideia era apenas aborrecermo-nos em Bruxelas e chatearmo-nos em Bruges. E assim foi, menos os verbos. Tanto uma cidade como a outra, na sua enorme diferença, são para visitar de olhos abertos, mente desperta e pés no empedrado das ruas. E estejam à vontade, podem sorrir e espantar-se, não é vergonha gostar da Bélgica. Eu gostei. Gostei da dimensão humana das cidades, atravessadas por parques e canais, por espectaculares montras e por história. E por corvos, bandos deles, emprestando à cidade um colorido negrume.

 

Está bom de concluir, sempre que ler um texto a maldizer um destino, apanharei um avião para lá. A terra pode ter má fama, pode ser que eu tenha bom proveito.

 

 


25
Set 09
publicado por pnf, às 10:15link do post | comentar | ver comentários (2)

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É sempre de louvar quando vemos uma empresa portuguesa a inovar, a rasgar horizontes e a arriscar a introdução de novos produtos no mercado global, inovações fresquinhas que farão espumar de raiva os seus concorrentes. Esse sim é o caminho, muito bem, venha daí um salva de palmas bem forte. Eu fico sempre contente quando isto acontece, agora não posso é garantir que goste sempre das inovações introduzidas...

 

Vem a coisa a propósito da mais recente aquisição para as casas de banho da empresa onde passo os dias e que tem a gentileza de me pagar o ordenado, mês após mês. Pois dá-se o caso que há mais de um semana que temos uma empresa portuguesa a fornecer um novo papel de secar as mãos, mas peço agora a vossa especial atenção para o pormenor, papel perfumado! Ah, estão vocês a pensar, grande coisa, isso já existe há para aí uns 20 anos. Está bem, contem-me coisas novas, eu também sei disso, mas aqui a especialidade é o aroma. É que estamos na presença dum papel com aroma a esgoto! E não se trata aqui dum engano, vê-se que a empresa está orgulhosa do seu produto, porque o cheiro não é forte, é muito forte! Que bonito é ver alguém inovar com esta violência olfactiva, os meus mais sinceros parabéns.

 

Claro que agora uma ida à casa de banho é tão agradável como um mergulho numa conduta de saneamento e apresenta ainda um problema olfactivo-ambiental: lava-se muito bem as mãos, com um cheiroso sabão líquido e seca-se com um desses inovadores papeis. Resultado: as mãos ficam a cheirar a fossa séptica. Voltamos a lavar e a ensaboar, seca-se e o resultado é o mesmo... Estão a ver o problema ambiental? Está bem que o papel é reciclado, mas obriga a tamanho gasto de água e sabão, que temo que a empresa esteja a dar uma no cravo e outra na ferradura, ambientalmente falando. Em conclusão, só conseguimos sair da casa de banho depois de lavar, ensaboar e secar as mãos à roupa. Parece-me que os gastos neste tipo de papel, vão rapidamente descer em flecha.

 

Engenhosa forma de reduzir custos. Quase que aposto que a próxima medida será adoptar um sabonete líquido com cheiro a enxofre, haja empresa que o forneça.

 


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