
A Sara sempre teve um problema de locomoção. Melhor, sempre teve um problema com o conceito de andar. Para ela, andar é correr, e correr, é correr ainda depressa. Ora, quem muito corre, muito cai. São as leis da Física, essas malandras. Lamentar ou lutar contra isso, é tão útil como uma colher de pau num combate a um incêndio.
Temos, assim, uma criança lançada em elevada velocidade, gelado numa mão, a piorar ainda mais o equilíbrio, o prenúncio do desastre. Uma perna que bate noutra, uma curva mal medida, talvez, quem sabe um degrau que não devia ali estar e cá temos o acidente, a desgraça anunciada. A menina já não corre, levanta-se. No chão ficou o gelado, restos de pele, algum sangue e o orgulho ferido. Estamos na presença de quatro feridas, uma para cada membro, que assim é tudo muito mais democrático, comem todos por igual. Não queremos cá uma perna a rir-se dum braço ou um braço a gozar com o outro.
Muito pior que a menina, ficou a avó, que, de tão aflita, já não distinguia onde acabavam a manchas do cornetto de morango e começava o sangue. Assim, Centro de Saúde com ela. E todo o ritual próprio dessas instituições, foi cumprido: um pouco de cunha para serem atendidas, o deitar na marquesa, os betadines e a água oxigenada, o chupa-chupa, as compressas e o conselho final: já está, agora se a menina tiver dores, podem dar-lhe um pouco de Ben-U-Ron. Todos os pais o sabem, até porque é fatal como o destino, seja em Braga, Freixo-de-Espada-à-Cinta ou na Ilha do Corvo, uma ida a um Centro de Saúde com uma criança, nunca está completa até que nos digam que podemos dar Ben-U-Ron, caso haja dor. Tem que ser, é assim mesmo, e, caso um dia tentem terminar uma consulta sem essas palavras, eu sei que estarei na presença dum falso profissional e saio dali directamente para a esquadra da polícia, para apresentar queixa.
Naturalmente muito combalida, a menina partiu para um sofá que lhe desse descanso, uma televisão que passasse uns belos bonecos e, porque não, um lanche ainda mais reforçado do que é habitual. O que me parece uma impossibilidade física, mas acredito que a avó o tenha tentado com grande vigor e dedicação.
O tempo tudo cura e os bons conselhos ficam para sempre. Já o sabíamos, mas a Sara agora se encarregou de nos relembrar. Depois de muito descanso e quando alguém perguntou como estava, belas palavras saíram pela sua pequena, porém sábia, boca:
- Já estou melhor, mas se tiver dores, vou tomar um Bennetton.
Sempre se disse, e eu até ia acreditando, mas agora é para mim uma certeza: não há nada que faça melhor a uma mulher, do que ir às compras. E, pelos vistos, está inscrito nos genes, reside nas profundezas do cérebro feminino. No caso da minha filha, a coisa até parece ser mais extrema, porque sabe perfeitamente qual é a marca que lhe tira as dores. Acredito que se o problema fosse outro, por exemplo febre elevada, haveria uma outra marca qualquer que tivesse o poder de reduzir a temperatura, mas ainda não tive a oportunidade de aprofundar este tema.
Meus caros médicos, aconselho a substituição das vossas tabelas de medicamentos, pela lista das lojas do centro comercial mais próximo. Porque quando aparecer algum ser do sexo feminino, grande ou pequeno, com grandes ou pequenas mazelas, não lhes indiquem a farmácia, mandem-nas às compras!
E pensar que andaram os nossos antepassados pelos campos e montes fora, à procura de ervas e raízes, fazendo chás e infusões, julgando que estava aí a solução para todas as maleitas... Pobres almas, mas então não viam que a solução não se encontrava aí, mas sim num qualquer shopping?