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Todos sabemos que, nos últimos tempos, temos assistido a mais um renascer do movimento migratório dos portugueses. Está a crise a bater à porta e é ver-nos em debandada, mala na mão, sonhos desafogados na algibeira e a eterna saudade como infeliz companhia.
Lá em casa, mais especificamente na Sara, essa vontade de emigrar também já se faz sentir. As razões para tal, é que são um pouco distintas das do resto da população. Até porque, como se sabe, aos cinco anos de idade não existem problemas económicos: o dinheiro floresce nos multibancos e parece que é lá semeado por um conceito vagamente abstracto, acho que se chama trabalho, emprego ou coisa assim.
O desejo migratório da menina ficou patente e bem vincado num trajecto de carro, que ela fez com a Beatriz e os avós. É ponto assente, para quem tem filhos, que os fins de dia, com o cansaço acumulado, algum sono e uma natural propensão para a parvalheira, conseguem transformar pacatos passeios em espirais de asneiradas, em que uma diz mata e a outra diz esfola. Neste caso, a coisa descambou para o calão e para os palavrões, numa velocidade tal, que nem deu tempo para intervenção prévia dos adultos presentes. Quem diz palavrões, diz cuecas, xixi, cocó e por aí fora, até que a Sara atinge o seu Everest, o ponto alto da noite, ao sacar duma fortíssima "pila". Silêncio no carro, não sei se para melhor apreciarem a qualidade do momento ou talvez para estabelecerem a melhor reacção à coisa. Imagino que a segunda opção esteja mais correcta, porque o silêncio foi cortado pelo avô:
- Ah pilas, sim senhor. Pilas é pilhas em espanhol, sabias?
Agora foi a Sara que estabeleceu breves segundos de silêncio. Mas, rapidamente recuperou:
- Ai quem me dera viver em Espanha!
- Para quê?
- Para falar espanhol.
Pobre criança, tão nova e já tão consciente que a nação a sufoca. Aos cinco anos de idade já vê como necessária a partida, ainda por cima para o "inimigo" de sempre, para que a sua liberdade seja completa.
Por aqui se vê que os camaradas que em 1640 acabaram com o jugo espanhol, deviam ter pensado um pouco mais. Caso não tivessem feito a Restauração, hoje poderíamos andar todos, e a Sara principalmente, a dizer pilhas e pilhas de pilas. E isso é que era!
Não teria era piada nenhuma...