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Como garantido tínhamos 4 dias de tédio e aborrecimento. Pelo menos era o que se podia concluir depois dumas breves pesquisas. É que bastou ler umas duas ou três opiniões sobre o nosso destino, para vermos que os adjectivos mais utilizados andavam na onda do sonolento, chato, desinteressante e mais uns sinónimos, igualmente simpáticos. A coisa prometia. Pelo sim pelo não, meteram-se uns livros no saco, para acelerar as horas que teimassem em passar.
Não li nem uma linha. Não tive tempo: ocupei-me a observar a beleza, a divertir-me, a ver, a provar. Não me aborreci. Que miséria, não consegui chegar às mesmas sensações de quem esteve lá antes... Onde terei errado?
Claro que quem chega a Bruxelas com a ideia de ver uma horda de cinzentões engravatados a medir maças com régua e esquadro, a garantir que todas as bananas curvam para o mesmo lado ou a normalizar qualquer outra coisa, são capazes de ficar um pouco desiludidos. Esses eurocratas-maníacos-dos-standards devem andar acantonados nos seus gabinetes, porque nas ruas encontramos um povo simpático e folgazão, a aproveitar os raios de sol ou os pingos de chuva, nas esplanadas; fanfarras coloridas e gigantones a dançar. Mais ou menos o que seria de esperar duma festa minhota, mas num formato um pouco mais nórdico e friorento.
Claro que há os clichés. E há que experimentá-los a todos, não é esta a altura para ficarmos nas margens, de sermos alternativos. Até porque estamos a falar de cerveja, aliás cervejas, centenas de tipos diferentes, cada uma com o seu sabor e o seu copo, nada de misturadas, nem pensar. Estamos também a falar de chocolates, cada um com melhor aspecto que o anterior, a gritarem por nós nas montras das chocolatarias, montras de babar e de pasmar e há, ainda, as batatas fritas, com molho disto ou daquilo. Ah, e as waffles ou gaufres ou lá como se chamam, quase que me esquecia delas, com aquele cheiro a entranhar-se nas ruas. Terra de colesterol elevado, fosse eu belga e explodia antes dos 40 anos, era certinho.
Quatro dias não dão para muito, por isso a ideia era apenas aborrecermo-nos em Bruxelas e chatearmo-nos em Bruges. E assim foi, menos os verbos. Tanto uma cidade como a outra, na sua enorme diferença, são para visitar de olhos abertos, mente desperta e pés no empedrado das ruas. E estejam à vontade, podem sorrir e espantar-se, não é vergonha gostar da Bélgica. Eu gostei. Gostei da dimensão humana das cidades, atravessadas por parques e canais, por espectaculares montras e por história. E por corvos, bandos deles, emprestando à cidade um colorido negrume.
Está bom de concluir, sempre que ler um texto a maldizer um destino, apanharei um avião para lá. A terra pode ter má fama, pode ser que eu tenha bom proveito.