
Parecendo que não, este blogue até que tinha um objectivo. Está certo que, pelo caminho, enviesou-se por caminhos e becos algo confusos e foi perdendo a autoestrada que dava sentido à coisa. Relembremos, então: serviria para relatar o suficiente que garantisse uma ideia da infância, para que, quando as minhas filhas forem grandes, não tenham a necessidade de me perguntar histórias de quando eram pequeninas. Assim, precavendo desde já a hipótese das maleitas dos velhos me limparem a memória, ficam aqui as coisas, preto no branco, em eternos bytes gravados.
E há coisas que devem mesmo permanecer, pedaços importantes do tapete de memórias que se quer tecer, por mais improváveis que pareçam. É aqui que aparece o bicho, ou melhor, o bichinho: animal sem espécie, tem um diminutivo como nome, que nasceu há tantos anos quantos os anos em que as crianças aportaram na nossa vida e não cresceu. Nem nunca crescerá. O bichinho é a minha mão e a alegria das meninas. Talvez seja uma recriação do Coisa da Família Adams, o que desde logo prova que não há personagem de terror, que não possa ser bem aproveitada, para uma brincadeira infantil. Estou até muito esperançado que apareça alguém que infantilize o Freddy Krueger, que me parece muito indicado para alegrar qualquer festa de aniversário infantil. Estou certo que concordarão comigo.
O bichinho gosta de crianças, brinca com elas, mas rouba-lhes bolachas e puxa-lhes os cabelos. E elas zangam-se com ele e ralham-lhe, bichinho!!. E ele fica envergonhado, roça os dedos, uns contra os outros, cabisbaixo, ele não faz nada por mal, ele é assim, é pequenino. Claro que ele não fala, estes dedos não têm boca, mas nem precisa: não há movimento que elas não entendam, vontades que elas não percebam, dores que elas não acudam. Tantos anos de convívio, transformaram duas crianças e uma mão, na pandilha mais perfeita e improvável.
Eu sei que o bichinho não cresce e só morrerá comigo. Mas sei também que a sua vida não vai estar activa muito mais tempo... Daqui a pouco vou ouvir, contrariado talvez, que está na hora do bichinho ceder o seu lugar, na vida das meninas. Que está na hora de entregar o bichinho à sua história passada, à infância que para trás vai ficando. E ele, coitado, hibernará. No meu bolso será guardado, assim como guardadas ficarão as memórias de tantas horas de diversão, que cinco dedos e duas crianças podem ter, todos juntos.
Mas, quem sabe, um dia não ouvirei, talvez mesmo daqui a umas tantas décadas, papá, onde está o bichinho? E, nesse dia, uma encarquilhada mão se libertará do peso dos anos, abandonará a manta das memórias e ganhará de novo a sua vida. À procura de bolachas para roubar, cabelos para puxar ou mesmo de corrimões onde escorregar.