Vê-los crescer, ganharem novas competências, um vocabulário mais rico, é sempre bom. Pelo menos é o que dizem. Eu, pela parte que me toca, acho isso muito bem: é de facto imensamente lindo ver os nossos filhos a crescerem e falarem como gente crescida, mas prefiro que seja depois do pequeno-almoço, assim quando já eu estiver relativamente acordado.
É que os palavrões podem ser muito indigestos logo pela manhã, como sabemos. A mim, pelo menos, caem-me sempre muito mal. Talvez tenha a ver com o facto de me colocarem contra a certeza que as minhas meninas crescem rápido demais, para o meu gosto. E eu gosto pouco que me coloquem contra certezas do que não gosto, prefiro ir de encontro às certezas do que gosto. São gostos meus, manias.
Provavelmente será melhor esclarecer desde já as almas mais sensíveis, que estamos aqui a tratar de palavrões e não de asneiradas, essas coisas de fazer corar o mais libertino leitor. Não, nada disso. Assim fosse e já a bola vermelha estaria içada, ali ao canto. O assunto, dizia eu, são os palavrões, aquelas palavras em que a proporção entre o número de sílabas e a idade de quem a diz, não bate certo. Como, por exemplo, a Beatriz, do baixo dos seus nove anos, dizer impronunciável. De referir que eu disse por exemplo, mas na verdade não é um exemplo, é mesmo o facto que queria relatar. Talvez, parece-me, não devesse ter dito por exemplo, ou, pior ainda, não devia ter usado o facto a relatar, como um exemplo... Adiante.
Impronunciável. Aos nove anos. E logo ao pequeno-almoço. Subitamente, senti-me atirado para o futuro, dei de costas com 2020 ou 2025, altura em que esperaria ouvir essas palavras, vindas de quem vieram. Porque, aí sim, seria uma palavra, não um palavrão. Era o mesmo que eu escrever aqui e agora uma palavra, aí com umas 35 sílabas, não queriam isso, pois não?
É que isto não foi só o susto matinal que me deu. Não, vai mais além. Dei por mim a imaginar no tipo de palavreado que será necessário ter ao jantar, ou mesmo daqui a um ou dois anos. Será mesmo complicado arranjar palavras, perdão, palavrões, para a Beatriz. Onde vamos nós encontrar palavras portuguesas, com umas quinze ou mais sílabas? Só vejo uma solução, passarmos para o alemão, ou o galês, gente habituado a colar as palavras umas às outras, sem rei nem roque.
Há ainda outra possibilidade, agora que penso melhor no assunto, podemos tentar falar em juridiquês, aquela língua esquisita com que os nossos legisladores gostam de se entreter. Mas é melhor não, o galês entende-se bem melhor!
