
Prometi a mim mesmo que escrevia isto. Ou melhor dito, sobre isto. Não porque tenha interesse, que não tem, mas porque tive um impulso que era sobre isto que devia escrever e, mesmo que o impulso tenha passado, que não há impulso que dure duas semanas, grande impulso seria esse, dava para atirar um elefante para fora do sistema solar e mais além. Dizia eu que o impulso já se foi, mau era, mas não seria por isso que deixaria de o respeitar e cumprir. Queremos nós andar aqui a renegar os nossos impulsos? Por mim, nem pensar. Que seremos nós sem os nossos lampejos de animalidade, o pulsar que nos afasta dum ser racional a cem por cento e sermos uma desinteressante amálgama de carne e ossos? Longe de mim essa imagem de racionalidade pura e ambulante, adoro a liberdade de ser um animal completo, mas não um completo animal.
Tudo isto originado por um filme, melhor, um DVD perdido em casa. Perdido também não é a palavra, porque ninguém o procurava, penso até que ninguém sequer se lembrava que ele existia. Um tesouro eternamente à vista, tão à vista que nunca ninguém o viu, intocado desde que, sabe-se lá como, entrou em casa. Até que eu lhe toquei e, naquela atitude de deixa lá ver o que isto é, o libertei do celofane e permiti que tomasse assento numa unidade onde lhe fosse possível mostrar ao mundo, ao meu claro, uma outra forma de cinema.
Desconheço se "American Splendor" será uma obra-prima. Sei que para mim o foi, ali, naquele momento. Como é bom ver uma nova interpretação duma arte, rompendo com as suas fronteiras, estraçalhando com os limites naturais do cinema e ao mesmo tempo aproximando-o, misturando-o, com o documentário e a banda desenhada, outras linguagens, mas certamente não línguas estranhas. Ver o real e a sua representação cruzando-se, como se fosse a coisa mais natural do mundo, mostrou-me, uma vez mais, que há sempre muitos caminhos a percorrer, muitos mais do que aqueles para onde a preguiça e o medo nos empurram, dia após dia. Romper é sempre agredir, mesmo que seja esse o percurso mais curto entre dois pontos.
Foi por me ter sido revelado que algo mais é sempre possível, que terminei o filme a dizer que tinha que escrever sobre isto. E foi também, e se calhar principalmente, pela evidência que todos temos tesouros à vista, sem escavar encontramos pérolas. Basta abrir os olhos. E ver, porque olhar não chega. Por isso quis escrever: está feito, não se fala mais nisso.