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Set 11
publicado por pnf, às 22:12link do post | comentar

Múmia 

 

 

 

Isto das ressurreições, só lá vai aos empurrões, é coisa vinda de fora. E já não é de agora, mesmo aquela muito famosa, um acontecimento assombroso já com uns bons 2000 anos, só aconteceu porque alguém ordenou, levanta-te ó Lázaro, que o pobre homem, ali morto e posto em descanso, não ia lá agora lembrar-se de se levantar e andar. A inércia ordenava que estivesse morto e sossegado, para todo o sempre, na bela e imutável ordem natural das coisas. Imagino mesmo que terá sido com algum desagrado que recebeu a ordem, ai que as pernas doem de tanto tempo deitado, um incómodo valente. Mas ordens são ordens, quem pode manda e, ressuscitar ou não ressuscitar, não era a questão, era o que tinha que ser.

 

Com este espaço, é o mesmo. Dum blogue assim mumificado, inerte como um rocha no deserto, alegre na sua morte, não se espere que desate numa torrente de ideias novas, de textos palpitantes, assim de pé para a mão. Não pode ser, nem pensar, tão bem é estar parado, tão confortável esta morte.

 

Por isso estranhei quando me fizeram um convite assim. Ressuscitar isto? Por convite?

 

Sem dúvida que o convite era irrecusável. Como tal, eu, evidentemente, recusei.

 

Porque não se convida para o transcendente, para realizar o não natural. Ressuscitar deve ser operação para furar umas dezenas largas de leis na física e da biologia, entre outras ciências, ocultas ou não. Coisa complicada de conseguir-se. Não estão à espera, certamente, que seja um convite, mansidão por natureza, a dar força para tão bíblica tarefa. Um morto não se convida, não é natural. Não se vence um conforto desses com falinhas mansas, com se faz favor, se não se incomoda, era tão bom, por obséquio. Nada disso. Que as grilhetas que prendem a um descanso tão eterno e perfeito, são majestosas, chumbo e espuma ao mesmo tempo. Se há extremos que se tocam, estes enrolam-se um no outro: estar morto é um sossego.

 

Está bom de ver: ressurreição, só aos gritos, com ordens bem dadas, palavras duras, por intimação. Se há que vencer inércias e atritos, preguiças e confortos, não me convidem: isso não dá força nem para abrir um olho.


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